Os sonhos intermináveis da mulher

Os sonhos intermináveis da mulher

A mulher desde os primórdios, enfrenta grandes desafios na direção do pertencimento. Ela desde sempre, luta pela igualdade de seus direitos. Ainda encontramos certos preconceitos, limitações, sarcasmos e ironias, desrespeito e abusos em nosso percurso. Somos mulheres continentes e temos um continente fertilizando o universo. Como diz, Milton Nascimento. “Os sonhos não envelhecem, em meio a tantos gases lacrimogênios”.

A mulher sonha, mesmo limitada, sonha. Ela é incansável. Ela espera, pacientemente. E seus sonhos são intermináveis. Lugares impossíveis, continentes pertencentes somente aos homens, hoje, lá estão as mulheres. Sua competência é infinita. Somos instigantes, sensuais, enigmáticas e incansáveis. Freud (1856-1939) refere-se às mulheres, em seus diversos textos. Em “Tabu da Virgindade” (1917), fez um interessante e rico estudo sobre as peculiaridades da vida sexual da mulher, levando em consideração desde os povos primitivos até a vida civilizada. Ele indaga, “Quem é o primeiro a satisfazer a ânsia de amor – trabalhosamente contida por largo tempo – de uma donzela, superando as resistências que nela se formaram por influência do meio e da educação, torna-se aquele com o qual ela forma uma relação duradoura, não mais possível para nenhum outro”.  “A mulher é todo tabu”, diz ele. “Só não é tabu nas situações especiais que decorrem de sua vida sexual, na menstruação, na gravidez, no parto e puerpério; também fora delas o trato com a mulher está sujeito a tão sérias e numerosas limitações, que temos toda razão em duvidar da suposta liberdade sexual dos selvagens”, complementa. “Ali onde o primitivo ergueu um tabu,é porque teme o perigo…”,diz Freud.

Em “A questão da análise leiga”, Freud (1926/2006), enfatiza que, sabemos menos acerca da vida sexual das meninas do que dos meninos. Mas não é preciso envergonharmo-nos dessa distinção; afinal de contas, a vida sexual das mulheres adultas é um “continente negro” (Dark continente). Penso que esse “continente negro” a que S.Freud refere faz muito sentido, pela capacidade que a mulher tem, de reconhecer em si mesmo, continentes ainda por ser visitado, revisitado, conquistado e completamente desconhecido. A contemporaneidade ilustra, juntamente com a Psicanálise, que o feminino, gradativamente, desbrava esse “continente negro”. Acredito que a mulher junto com o homem na sua completude, poderão conquistar espaços ainda pugnando por nascer. Em nome do amor, tudo podemos. À todas as mulheres, um feliz dia e com muitos sonhos.

Maria Angelica Amoriello Bongiovani – Psicanalista, escritora, Membro Efetivo na SBPSP, Membro e docente do GEP de Marilia e Região.

Janeiro Branco

Janeiro Branco

A campanha “Janeiro Branco” foi criada em 2014 e em 2023 foi instituída como Lei Federal (14556/23) tornando-se um marco oficial no calendário brasileiro. Essa iniciativa começou em Uberlândia, tendo como idealizador o psicólogo Leonardo Abraão.

A Campanha tem por principal objetivo propor ações visando a prevenção do adoecimento mental, que pode levar ao adoecimento psíquico como a depressões em vários níveis, dos mais leves aos mais severos, muitas vezes trazendo serias consequências, levando a morte física ou psíquica se não nos atentarmos para a vida mental.

Neste ano, a campanha “Janeiro Branco” traz como tema: o que fazer pela saúde mental agora e sempre.

É comum no mês de janeiro traçarmos metas e fazermos reflexão sobre mudanças para recomeçar o ano com bons hábitos, entretanto, devemos nos lembrar que a mente não obedece comandos conscientes, somos fruto de uma história, carregamos um passado e marcas que ficam em nosso inconsciente que muitas vezes não nos permite mudar de hábitos tão facilmente e na maioria das vezes os hábitos que não são bons estão ligados a angustias, ansiedades que vem do nosso mundo interior. Neste sentido penso que janeiro é sim um marco para nos atentarmos para o passado, o presente e ter esperança no futuro. Digo isso no sentido de buscarmos fazer uma reflexão sobre como levamos a vida, ao que estamos dando importância, de janeiro a janeiro!

Em tempos de tecnologia avançada, somos cobrados a agir de forma rápida e a vida mental fica destinada ao tempo cronológico, sequencial, mensurável que se associa à finitude – Chronos – rei dos titãs que tudo devora,  se perde a qualidade do tempo vivido, tempo de Kairós , filho de Zeus e de Tyche, deusa da prosperidade, que está associado a algo especial e oportuno, que acontece no instante valioso do presente, tempo que faz o acontecimento ser memorável em sua significância.

Nosso mestre Freud, fala da fruição como uma forma de liberar tensões psíquicas, o que permite a experiência de satisfação ou realização. A fruição pode estar ligada ao prazer imediato ou está relacionada ao prazer ligado a experiências criativas, ligada às artes. Se tivermos imbuídos da arte que o outro cria, estaremos cuidando da nossa saúde mental, podendo receber a arte dentro de nós como uma forma criativa de viver. arte no sentido de criatividade.

No artigo “Sobre a Transitoriedade” Freud nos fala sobre a difícil tarefa de contemplar a beleza que está fadada à extinção, tudo que é belo é transitório. Temos um desejo de imortalidade e talvez por este motivo, as telas, os celulares, os corpos que não envelhecem estão á favor do adoecimento psíquico. As experiências emocionais se perdem quando ao invés de, sentirmos, fotografamos ou filmamos uma cena. Muitas vezes, nem se sente o frio na barriga diante de um ator/atriz maravilhoso, o aparelho de celular se apresenta como forma de registrar para o futuro aquela cena, perdendo-se a oportunidade de eternizar dentro de nós aquela experiência emocional.

Observo as cartilhas e manuais de “como ser mãe” quando nasce um bebê. Essa é uma das formas de não entrar em contato com a angustia gerada pela bela e dolorosa experiência da maternidade. Quando as mães estão buscando vídeos, fórmulas mágicas estão perdendo a linda oportunidade de “estar com” seu bebê, oportunidade única que coloca distante a experiência daquele momento que ficará registrado na vida mental não só do bebê que está  à espera de alguém que o humanize, e sim, da dupla mãe/bebê. As telas muitas vezes nos impedem de observar/sentir o essencial para cuidar a tempo de um ser que acaba de nascer, indefeso e necessitado do olhar atento.

Temos que lidar com o luto daquilo que é passageiro, como o exemplo do bebê, amamos com tanta intensidade que muitas vezes o impedimos de crescer e se desenvolver em toda sua potencialidade, os tornando reféns de nossos próprios desejos de imortalidade.

A psicanalise é uma ferramenta que para usarmos temos que tê-la afiada como os instrumentos cirúrgicos. Se não cuidarmos de nossa própria mente, não teremos como cuidar do outro. É preciso uma analise longa e profunda do analista, somos humanos e temos nossas feridas, em contato com nossas dores poderemos estar intimamente ligados a dor de quem nos procura, podendo assim promover uma vida plena de significados, concebendo que dores, dificuldades sempre existirão, o bem estar está ligado a poder “SER”  o que se é em toda sua potencialidade, o que difere de “TER” tudo que desejamos!

Com esse breve texto, deixo a reflexão: cuidar da saúde mental, dos vínculos que temos de forma mais criativa pode nos levar a um futuro mais promissor como ser individual e também como seres inseridos numa sociedade, se nos sentirmos cuidados, as chances de cuidarmos serão promissoras. E tudo começa por aí: um bebê desde o ventre materno precisa do corpo e da mente de alguém para conter as necessidades biológicas e psíquicas, para que no futuro tenha a capacidade de cuidar-se e cuidar do outro, amar-se e amar ao próximo! Assim estaremos mais protegidos de adoecermos psiquicamente!

Maria Inês Alves

Psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e Membro fundador do GEP de Marília e região

Excesso do uso de telas na infância: um perigo à vista

Excesso do uso de telas na infância: um perigo à vista

Vivemos em um mundo cada vez mais tecnológico, onde aparelhos conectados à internet estão mais acessíveis e presentes em todos os lugares. O celular, por exemplo, tornou-se indispensável no nosso dia a dia, oferecendo inúmeras facilidades por meio de aplicativos. A tecnologia é, sem dúvida, uma grande aliada em diversas situações. No entanto, como tudo na vida, o excesso pode trazer consequências negativas. E quando falamos de crianças, o impacto do uso exagerado da tecnologia pode ser ainda mais preocupante, já que estamos lidando com indivíduos em pleno desenvolvimento mental e emocional.

Vivemos em um mundo cada vez mais tecnológico, onde aparelhos conectados à internet estão mais acessíveis e presentes em todos os lugares. O celular, por exemplo, tornou-se indispensável no nosso dia a dia, oferecendo inúmeras facilidades por meio de aplicativos. A tecnologia é, sem dúvida, uma grande aliada em diversas situações. No entanto, como tudo na vida, o excesso pode trazer consequências negativas. E quando falamos de crianças, o impacto do uso exagerado da tecnologia pode ser ainda mais preocupante, já que estamos lidando com indivíduos em pleno desenvolvimento mental e emocional.Vivemos em um mundo cada vez mais tecnológico, onde aparelhos conectados à internet estão mais acessíveis e presentes em todos os lugares. O celular, por exemplo, tornou-se indispensável no nosso dia a dia, oferecendo inúmeras facilidades por meio de aplicativos. A tecnologia é, sem dúvida, uma grande aliada em diversas situações. No entanto, como tudo na vida, o excesso pode trazer consequências negativas. E quando falamos de crianças, o impacto do uso exagerado da tecnologia pode ser ainda mais preocupante, já que estamos lidando com indivíduos em pleno desenvolvimento mental e emocional.

Os efeitos do excesso de telas no desenvolvimento infantil

Quando a criança passa horas diante de telas, ela perde oportunidades valiosas de exercitar a criatividade por meio de brincadeiras tradicionais, como brincar de boneca, fazer comidinha, brincar com carrinhos ou encenar histórias com super-heróis. Nos jogos de vídeo-game ou nos vídeos do YouTube, tudo já vem pronto, não exigindo que a criança imagine ou crie cenários próprios.

Outro ponto preocupante é o isolamento social. O uso excessivo de telas restringe o contato com outras crianças, o que prejudica o desenvolvimento socioemocional. As interações com outras crianças são fundamentais para que a criança aprenda a se relacionar, resolver conflitos e entender a importância da convivência em grupo. Essas habilidades são cruciais ao longo da vida, seja no ambiente escolar, no trabalho, nas amizades ou nos relacionamentos familiares e amorosos.

Além disso, quando a criança fica muito conectada aos aparelhos eletrônicos, ela se desconecta da vida e de tudo aquilo que ela pode oferecer: as descobertas da natureza, a interação com outras pessoas, a exploração do ambiente ao seu redor e a criação de memórias que ajudam na construção de sua identidade.

Quando a criança brinca, ela também está lidando com as suas angústias. A brincadeira é uma grande aliada à saúde mental da criança, permitindo que ela elabore emoções, experimente papéis sociais e se expresse de forma criativa.

O papel dos pais no equilíbrio do uso da tecnologia

Cabe aos pais e responsáveis estabelecer limites e promover um equilíbrio no uso da tecnologia. Estimular brincadeiras que envolvam criatividade, movimento e interação social é essencial para o desenvolvimento integral da criança. Também é importante reservar momentos para atividades em família que não envolvam o uso de aparelhos eletrônicos, fortalecendo os laços e incentivando a troca de experiências.

E se você perceber que precisa de ajuda, busque um psicanalista ou psicoterapeuta de criança. A psicanálise é uma grande ferramenta para lidar com o sofrimento emocional, ajudando a criança a superar desafios e se desenvolver de maneira saudável.

A tecnologia pode ser uma aliada, mas seu uso deve ser consciente e moderado. O que está em jogo é o bem-estar e o futuro de nossas crianças.

Marcio Oldack

Psicanalista em formação integrada de criança, adolescente e adulto pelo Instituto Durval Marcondes da SBPSP; Membro Filiado do GEP Marília e Região; especialista em Psicoterapias de Orientação Psicanalítica pela Famema – Faculdade de Medicina de Marília; Psicólogo pela Unimar – Universidade de Marília.

A propósito do 13 de maio e chegando no 20 de novembro…

A propósito do 13 de maio e chegando no 20 de novembro…

No dia das mães, que ocorreu este ano (2024) no dia 12 de maio, comecei a pensar no dia 13 de maio de 1888, dia em que foi declarada extinta a escravidão no Brasil. Em nome de Sua Majestade o Imperador, o Senhor D. Pedro II, a Princesa Imperial Regente (Isabel) fez saber a todos os súditos do Império que a Assembléia Geral decretou e ela assinou e sancionou a lei.

PORÉM, nada, além disso, foi feito pelos “libertos”. A partir daí não tiveram nenhum direito legal garantido por lei. O que todo ser humano necessita? Direitos à educação, alimentação, segurança, trabalho, moradia, saúde e ser reconhecido como cidadão do lugar onde vive? Se nada disso foi minimamente garantido o que ocorreu com essas pessoas? Qual a qualidade de vida que passaram a ter? Qual o reflexo disso nos tempos de hoje? Paramos para pensar sobre isso? Creio que seria bom conversarmos a respeito disso. Poderá nos ajudar a entender alguns aspectos da cultura brasileira, na qual estamos todos imersos. Esse quadro abaixo, intitulado Mãe Preta, de Lucílio de Albuquerque, de 1912 me impressiona, entre outras coisas por que me faz pensar: O que mudou dessa realidade nos dias de hoje?

Ayabá é uma palavra Yorubá que significa grande mãe, “mãe rainha”, e no camdomblé, é o nome dado às Orixás mulheres. O poder feminino, que representam as forças da natureza, a gestão da vida e o poder do matriarcado, no caso, é toda forma de
dar força a uma mulher, de trazê-la a sua verdadeira essência, sua forma original, antes da sociedade determinar como ela deve se portar. In:Salles, Larissa Oliveira. Ayabas: o poder feminino. 202034f.,Il. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Comunicação)- Universidade de Brasília, Brasília, 2020

Conjecturei que chamavámos de babá pela presença das Ayabas. Só que não! A origem da palavra Babá vem do persa bābā (اباب(, que significa pai. Cada vez mais presentes na sociedade moderna, as babás são as responsáveis por cuidar das crianças a partir de 3 ou 4 meses de idade (sem especialização em enfermagem) na ausência dos pais. Postado em 02/04/2019. Google 23/05/2024,11:15h

Nos tempos da escravidão havia a Ama de leite, geralmente esse encargo era dado às escravas que já tinham filhos. Atualmente ama de leite é definido como a mulher que amamenta criança alheia quando a mãe natural está impossibilitada de fazê-lo.
Busquei fotos de babás na internet, e as imagens que apareceram foram de mulheres pretas ou pardas.

Fiquei intrigada e resolvi verificar qual a característica da população brasileira hoje. População aproximada do Brasil segundo as regiões. Baseada no Censo do IBGE 2022

Vamos verificar a porcentagem da população do Brasil do ponto de vista da cor da pele: Censo do IBGE 2022

Pardo segundo o IBGE: Se refere a quem se declara pardo e possui miscigenação de raças, com predomínio de traços negros. Preto é a pessoa que se declara preta e possui características físicas que indicam ascendência predominantemente africana.
População numérica, aproximada, do Brasil segundo a cor da pele. Segundo dados do IBGE 2022

Podemos dizer (a partir da constatação) que os pretos e pardos são maioria no nosso país, mas sabemos que não ocupam a maioria dos postos de trabalho que são melhores remunerados. Estes são ocupados por homens e brancos. Sabemos também que temos mais mulheres que homens na nossa população. Não chequei os índices, mas sabemos que as mulheres de uma maneira geral não estão nos cargos melhores remunerados. É algo para aprofundar no conhecimento. E o que dizer da população amarela e indígena?
Quando eu estava no ginásio participei do coral do colégio e nós cantávamos uma música de autor desconhecido, com a seguinte letra:

Negro clama liberdade
Negro não sabe o que é dor!
Negro não tem alma não.
Assim dizia o feitor…
Com seu chicote na mão.
Malvado banzo me mata
Quero a pátria voltar
Na minha terra sou livre
Como avezinha no ar.
Negro, Negrooooo
Como entendemos o racismo no nosso país, na atualidade. Nos tempos da escravidão instituída, os negros queriam voltar para sua pátria. Os pretos e pardos acima, nasceram aqui. Esta é sua pátria! Essa pátria os reconhece de forma plena? Têm os mesmos privilégios/chances que os brancos? Concordo com a psicanalista Josiane Barbosa de Oliveira da SBPRP quando nos diz: o racismo é um problema atual e não só um legado histórico. Para podermos mudar o racismo temos que ver o racismo entranhado em cada um de nós.
Josiane nos apresenta alguns modos de se pensar sobre o racismo:
1- O racismo não existe no Brasil
2- O racismo existe, mas não me atinge.
3- O racismo existe, me atinge, e vai se resolver sozinho.
4- O racismo existe, me atinge, não vai se resolver sozinho, mas não me diz respeito.
5- O racismo existe, me atinge, não vai se resolver sozinho e me diz respeito.
Outro dado é que 70% da nossa população não identifica o racismo que tem. Como a psicanalista Josiane eu credito que precisamos, para além de reconhecermos o racismo que temos, precisamos ser antirracistas, romper o silêncio, fazer algo para que a mudança ocorra.
Com nossos analisandos, podemos ver a influência do racismo estrutural na vida das pessoas. Em 4/7/21 Maria traz pela primeira vez, aspectos relacionados às suas vivências de racismo e suas repercussões emocionais. Relatou: Meu papel sempre foi mais de escutar e não de falar e isso me incomoda, e eu sempre sou interrompida se tento falar… Muitas coisas eu não percebia… Traz nesse momento episódio da infância em que a mãe tentou matriculá-la numa escola e não foi aceita, por “ser neguinha”.
Depois diz que a escola quando se deu conta “quem” era a sua mãe naquela sociedade, foi falar com ela, mas a mãe não aceitou colocá-la lá… Depois na área profissional, conta que certa vez apresentava um trabalho e um colega se intrometeu e ficou paralisada, “não consegui falar nada, não me defendi…
Em 31/3/22 M-…..a maior parte das minhas lembranças de acordar, vem com um não querer levantar,… não quero acordar. Aula às 7 da manhã… Affe… Eu passei por média e perdi por falta e tive que fazer recuperação. Eu não faltava,… chegava atrasada…todas as aulas de história eram às 7 da manhã.. não gostava da escola…lá tinha coisas boas e ruins. Acho que isso me dava desconforto de não me sentir legal na escola…como se ali não fosse meu lugar..
A- Por quê?
M- Acho que eu tinha dificuldade de me relacionar com as pessoas. Sempre era solitária, tinha poucos amigos…melhorou um pouco a partir da quarta série, mas mesmo assim me sentia, assim, de fora..
A- Mas por você querer se isolar ou as pessoas não queriam estar em contato com você?
M- Acho que mais por mim mesma, eu sou difícil de me enturmar…Tem gente que chega e conversa,… eu fico afastada…eu queria me aproximar, mas a minha falta de jeito!…
A- Você se reporta ao seu jeito, e as pessoas tentavam se aproximar de você?..
M-….Que eu me lembre, não..porque..(silêncio)… Talvez tivessem preconceitos para comigo… mas isso não me passava pela cabeça… já tinha tido essa questão numa outra escola, que não quiseram me matricular porque eu sou neguinha… era escola particular, cheia de tric, tric… Segue falando que a sogra orientou ao filho a não maltratar os meninos neguinhos, e aí ele ficou matutando sobre isso…No meu caso eu só percebi isso quando adulta…nesse colégio na minha sala, de não brancos tinha eu e um colega… Eu conversava praticamente só com ele, e vice versa…Provavelmente eu vivi isso em outros colégios, minha mãe só me colocava nesses colégios porque tinham bom ensino…
A- Ela sabia que poderia ser bom, mas você teve que viver intensamente, e sem compreender direito a força desse funcionamento do racismo estrutural em que estamos ainda imersos.
M- Suspira.. Na faculdade tinha mais mistura…mas éramos poucos… Em abril 2024 Maria volta a falar da adolescência, diz que se achava um patinho feio, que os rapazes não se interessavam por ela, que várias pessoas lhe diziam que era feia,…achava que tinha alguma coisa errada com ela e atualmente acha que podia ser alguma coisa racista,…me arrumava e achava que estava bonita e… ninguém te vê?,…nem te nota?…
Contou que no intercâmbio que realizou, quando estava para voltar, lhe contaram que uma senhora do comitê ficou em dúvida se a aceitava, mas que tinha tudo dado certo, mas que nenhum rapaz a chamou para ir para a festa de formatura e que ela teve que chamar um rapaz que já tinha saído da escola,… e foi até legal!…foi interessante ela comentar isso!!
Analista- As situações de perdas e do social também influenciaram na forma como você se sentia…
(Há uma mistura das questões pessoais relativas ao desenvolvimento da personalidade e do fato de ser negra?). Como o racismo influencia na construção identitária? Seria para além do narcisismo das pequenas diferenças? Qual o peso que
tem para os indivíduos serem colocados num determinado lugar no contexto que eles vivem e ficarem aprisionados nele?

Em 7/08/24 na apresentação do trabalho da psicanalista da SBPSP e SBPSP Camp Elony Conversano, o psicanalista da SBPSPA Ignácio Alves Paim Filho trouxe um aspecto importantíssimo, que entendi assim: os analisandos nos trazem suas características individuais. (suas neuroses, por exemplo), mas trazem também aspectos do coletivo, do ancestral, no caso do racismo, que é estrutural e da ordem do social an qual todos estamos inseridos. Assim precisamos ampliar a nossa escuta para sairmos desse ponto cego em nós. Nossa formação em psicanálise é no modelo branco, para brancos. Se a descolonizarmos, (precisamos ler o que autores negros têm a nos dizer), todos sairemos ganhando. Precisamos saber o que fazemos com o racismo estruturado em nós.

Vou contar aqui um episódio que aconteceu comigo:

Eu estava caminhando numa pista de cooper há cerca de uns 4 anos. Era cedinho umas 7 h da manhã. Passei por um rapaz negro, que habitualmente não estava ali. Segui caminhando, e havia uma senhorinha que sempre estava ali usando os aparelhos de exercícios dessa pista e ela estava olhando o celular. Um pouco mais à frente, dois homens pardos, chegaram com uma Kombi. Estacionaram, desceram e me chamaram para dizer para eu ir avisar a senhorinha que ela provavelmente seria assaltada pelo primeiro rapaz. Eles não o conheciam, só acharam suspeito o jeito dele quieto sentado em um dos bancos, não estar caminhando e nem fazendo exercícios nos aparelhos.
Nessa hora, eu fiquei “encanada”, voltei, e fui falar com a senhorinha. Ela guardou o celular e eu voltei a caminhar. Quando eu estava voltando eu vi o moço “suspeito” entrando num carro. Eles falaram algo do tipo que iriam para um trabalho e eles
estavam dando carona para ele que os esperava. Nessa hora eu fiquei me sentindo muito mal, porque eu desconfiei dele. Se fosse alguém branco, será que teria ocorrido o que ocorreu?. Ele voltou outros dias. E foi para seu trabalho, com sua carona. Os outros dois homens, eu encontrei dias depois. Fui falar com eles, contei o que presenciei e inclusive da vergonha que fiquei com meu comportamento.
Quantos fatos temos: Abordagem policial à pessoas pardas ou negras por estarem com um bom carro, olhares desconfiados de comerciantes e vendedores para essas pessoas em shoppings e lojas, que se ocorre algum roubo são os primeiros a serem considerados suspeitos.
Outra paciente trouxe recentemente que numa entrevista de emprego foi elogiada, foi dito que tinha todas as características necessárias para o emprego em questão, mas escolheram uma pessoa branca. Diz: Acho que não gostaram da minha aparência e nem da minha cor. Referiu que isso já tinha acontecido outras vezes com outras entrevistas.
Ou uma paciente adolescente anos atrás que só usava o cabelo preso “por que ele era encarapinhado”. Ela tinha vergonha do seu cabelo. Chamavam de “Bombril” e isso a deixava muito triste.
O que seria isso senão manifestações de racismo estrutural.
Acredito que precisamos conversar sobre isso, entre nós psicanalistas e também conversar com a população em geral, sobre a repercussão destes aspectos na constituição da estrutura psíquica.
O que entendemos como racismo? Sabemos o que é Letramento racial?
Quem quiser conversar mais sobre isso entre em contato com o Whatsapp do GEP de Marília e Região e vamos criar uma roda de conversa sobre esse tema. Tel. (14) 996146782

Vamos!!

Rosa Maria Batista Dantas
Soteropolitana de nascimento e Mariliense de coração
Membro Associado da SBPSP
Diretora da Comunicação e Divulgação do GEP de Marília e Região
Integrante da diretoria de Cultura do GEP de Marília e Região

As principais contribuições de Thomas Ogden para a clínica psicanalítica

As principais contribuições de Thomas Ogden para a clínica psicanalítica

”Assim como oceano só é belo com o luar

Assim como canção só tem razão se se cantar

Assim como a nuvem só acontece se chover

(…) Não há você sem mim e eu não existo sem você”

Tom Jobim / Vinicius de Morais

Thomas Ogden, psiquiatra e psicanalista americano, filiado à International Psychoanalytical Association (IPA), nasceu em 04 dezembro de 1946. Mora em São Francisco, Califórnia, e ao longo desses anos trouxe uma grande contribuição para o desenvolvimento da Psicanálise ao centralizar seus estudos, questionamentos e ampliação da teoria do desenvolvimento da personalidade, da interação intersubjetiva e do processo psicanalítico. Tem um grande volume de publicações, grande parte delas traduzidas e publicadas em português, atualmente mais intensamente pela Editora Escuta com a coleção Kultur. Ganhador dos mais importantes prêmios da Psicanálise, Ogden propõe um novo olhar para o processo analítico. Seus pilares e referências teóricas são Freud, M. Klein, Bion, Tustin, Fairbairn e Winnicott. Ele é visto como psicanalista e escritor. Suas obras são muito bem escritas e de grande profundidade.

Ogden se destaca como uma das mentes mais brilhantes no cenário psicanalítico atual, com perspectivas intuitivas e profundas sobre o funcionamento e desenvolvimento mental, bem como sobre o que ocorre na relação analítica, além de ser um autor inventivo e premiado e ter da literatura e da escrita uma visão interativa bastante peculiar.

Centralizarei o relato de suas principais contribuições nos conceitos que surgem da interação dialética entre sujeito e o objeto ressaltando uma nova forma de destacar a intersubjetividade. Os sujeitos criam-se mutuamente, não há analista sem analisando e não há analisando sem analista, mesmo quando as individualidades são mantidas e consideradas. O analisando não é só o sujeito da investigação, o analista compõe essa investigação, é sujeito dela também quando empresta suas rêveries advindas de seu posicionamento vindos do senso de vitalidade e desvitalização de ambos. Talvez esse seja o ponto nodal do processo analítico. Ela está nos bastidores de todos os momentos da sessão. Ogden dá grande importância à experiência de estar vivo e que as palavras e a escrita estejam vivas também. E em constante movimento, quando a dupla está estagnada a possibilidade de transmitir o sentido da experiência humana fica estagnado também.

O objetivo da tarefa no processo analítico, na escrita e na busca pelas palavras é usar a linguagem para aprimorar a tradução da experiência humana, poder captá-la em graus mais profundos. Não é falar, escrever ou psicanalisar sobre, mas é o esforço de criação da experiência de vitalidade humana. A vitalidade precisa ser vivenciada. Com essa vitalidade o analista tenta se manter inconscientemente receptivo para desempenhar papéis na vida inconsciente do analisando. Ele dá uma parte de sua individualidade que nasce de ambos.

Requer um grande investimento de ambas as partes. Disso depreendemos a ideia da enorme importância que é tornar-se um analista constantemente. Adquirir uma possibilidade de ser um determinando analista para cada analisando.

 “Aprender a falar com a própria voz e com as próprias palavras requer que a pessoa aprenda a ouvir e a usar os sons vivos da fala”. 

E direcionando para aquele paciente.

Esse desafio, a fala humana viva, é difícil de ser adquirida para analisar, escrever e falar. Para Ogden, o que faz abrir um abismo entre o par analítico é o impedimento de ouvir de modo imaginativo e livre os pensamentos, sentimentos e sensações inconscientes de ambos. O esforço embutido na tarefa analítica é a tentativa do par para ajudar o analisando a se tornar humano em um sentido mais amplo. Ele atribui esse esforço entre as poucas coisas que pode ser mais importante do que a sobrevivência.

Em sua visão, toda forma de psicopatologia em geral pode ser vista como a incapacidade de crescer. De vir a ser plenamente de uma maneira que pareça real. A experiência de não crescer, não mudar, não se tornar, é um estado de ser no qual a pessoa é incapaz de sonhar, de se engajar em um trabalho psicológico inconsciente e consequentemente incapaz de imaginar a si mesmo, de imaginar a si mesmo na existência. Em outras palavras, uma medida significativa da gravidade da doença psíquica é o grau em que o tornar-se cessou.

A experiência de ser e tornar-se em saúde é uma qualidade fundamental de estar vivo desde o início até o fim da vida.

Cibele di Battista Brandão é membro efetivo e analista didata da SBPSP e membro titular do GEP Marília e Região. 

Imagem: Shutterstock 

As opiniões dos textos publicados no Blog da SBPSP são de responsabilidade exclusiva dos autores.

PASSAGENS PEDEM PRESENÇA

“Faça uma lista dos grandes amigos
Quem você via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você não encontra mais…”
(Osvaldo Montenegro)

  28 de maio de 2022 vivemos no Núcleo de Psicanálise de Marília e Região um momento muito importante!

Voltemos um pouco…

Em março de 2020 foi decretado: todos isolados, a força brutal da vida e da morte se apresenta de modo real! Um golpe profundo em nosso eu! Parecia que a capacidade de sonhar havia sido extinta de nossas vidas, perdemos o
paladar, o olfato, o ar que respiramos, força da vida, ficou perigoso e raro, trazia com ele algo letal! Nossos medos mais arcaicos foram re-ativados. O cuidado com o outro era necessário, descobrimos nossa força destrutiva, mas,
também tivemos a oportunidade de sentir em tom maior nossa força amorosa. O medo de enlouquecer e cair no vazio psíquico nos assolava.

No início de maio de 2022, nossa querida colega, Cássia Teixeira Assef, nos faz um convite. “Quero presença, de corpo e alma, na apresentação do meu relatório”! Assim voltamos a sentir sentimentos antigos, guardados em nós,
aguardando a hora de voltar para o presencial. Sentimentos que um abraço, um aroma, um olhar ao vivo, há muito tempo não experimentávamos.

A jornada para o vir-a-ser um psicanalista é longa, árdua, cheia de flores e espinhos. A passagem é sempre brindada entre grandes amigos que fazemos ao longo dessa caminhada. Havíamos perdido isso, o ritual de passagem
acontecia virtualmente, mas, não tinha o mesmo sabor, a mesma cor, as sensações ficavam prejudicadas pela falta de corpo.

Neste encontro, alguns de máscara, outros sem máscara, cada um voltando à vida de um modo muito singular, mas algo ali era comum a todos. O olhar, que não estava ofuscado pelas lentes de uma câmera, olhares vivos, vibrantes, que comprovava, estamos vivos, pulsão de vida sobrepujando pulsão de morte!

Foi inevitável sentir a ausência dos que tanto sonharam com essa volta, mas a força da natureza humana não os permitiu estar lá, presentes concretamente, a morte foi soberana! Nosso querido José Antônio Pavan que sonhou concretizar um espaço para a “Sede no Núcleo” deixou para nós a base, a fundação! Agora nos resta levantar paredes que possam conter esse sonho tão sonhado. As ausências foram presença viva neste encontro.

Dr. Alfredo Colucci, representante de todos os pioneiros, com sua habitual generosidade trouxe sua presença marcante, conduzindo-nos ao caminho da fé e esperança, reacendendo em nós uma chama para a vida psicanalítica.

O Núcleo, um lugar que alberga nossos sonhos de vir a ser psicanalistas, lugar de muitas lutas e conquistas, neste dia 28 de maio de 2022, nos acolheu em seu berço para receber uma analista, que nos apresentou um trabalho primoroso, cheio de vida e de verdades, que nos impulsiona a seguir confiantes de que um(a) analista é aquele(a) que sem medo vive um encontro de almas, correndo riscos, se embrenhando por lugares nunca visitados em nós e em nossos analisandos.

Uma data memorável, que venham outros encontros de corpo e alma!!

Maria Inês Alves

Membra filiada da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e membra agregada do Núcleo de Psicanálise de Marília e Região.

Precisa de ajuda?